- Table of content
- 3.4.9.1 Jesus institui a Santa Ceia
- 3.4.9.2 Jesus em Getesêmane
- 3.4.9.3 Jesus diante do Sinédrio
- 3.4.9.4 Jesus diante de Pilatos e Herodes
- 3.4.9.5 Crucificação e morte sacrificial de Jesus
- 3.4.9.6 Indicações veterotestamentárias referentes ao sofrimento e à morte sacrificial de Jesus
- 3.4.9.7 Indicações de Jesus referentes ao Seu sofrimento e à Sua morte
- 3.4.9.8 Indicações referentes à morte sacrificial de Jesus nas epístolas dos apóstolos
- 3.4.9.9 A cruz
3.4.9.5 Crucificação e morte sacrificial de Jesus
No Seu caminho para Gólgota, Jesus era seguido por uma grande multidão de povo. O Senhor disse às mulheres que o lamentavam: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai, antes, por vós mesmas, e pelos vossos filhos» (Lc 23,28). Foi uma indicação que Ele deu relativamente à iminente destruição de Jerusalém.
Juntamente com o Senhor, foram crucificados dois criminosos. A cruz de Jesus era a do meio. Aqui se cumpriu o que estava escrito em Isaías 53,12: o Senhor «foi contado com os transgressores», foi colocado ao mesmo nível deles. Os severos sofrimentos de Jesus acabaram por terminar numa cruel agonia de morte.
As palavras que Jesus disse, já na cruz, dão testemunho da Sua grandeza divina. Mesmo naquele sofrimento e na agonia de morte Ele ainda se dirigiu com misericórdia, perdão, intercessão e compaixão aos outros, manifestando, assim, o amor de Deus e a Sua graça.
A tradição eclesiástica definiu uma determinada sequência das últimas palavras de Jesus, que mesmo nos Evangelhos, difere consoante o autor, e a qual também queremos seguir aqui:
«Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.» (Lc 23,34)
O Filho de Deus, que, mesmo na cruz, continuou a ser o Misericordioso, intercedeu diante do Seu Pai por todos aqueles que o tinham levado ali à cruz e que não abrangiam o significado real dos seus atos. Foi neste momento que Jesus cumpriu a lei, de amar o seu inimigo, de uma forma inigualável (Mt 5,44.45.48).
«Em verdade te digo que estarás comigo, hoje, no Paraíso.» (Lc 23,43)
O Senhor dirigiu-se ao infrator que ali estava crucificado juntamente com Ele, que Lhe tinha pedido pela Sua graça e que tinha reconhecido, no momento da sua morte, que Jesus era o Salvador. O Paraíso que o Senhor prometeu àquele pecador arrependido era, na imaginação da época, o local onde se encontrariam os piedosos e justificados no além.
«Mulher, eis aí o teu filho.» — «Eis aí tua mãe.» (Jo 19,26.27)
No momento da Sua morte, Jesus preocupou-se com Maria, Sua mãe, e confiou-a nas mãos do Seu discípulo João. Aqui, evidencia-se o cuidado paternal e o amor de Cristo, que intercede pelo próximo, apesar da Sua própria aflição.
Na tradição cristã, Maria é vista como símbolo da Igreja. Ela é colocada sob a tutela do ministério de apóstolo, que aqui é representado por João.
«Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?» (Mc 15,34)
Os judeus crentes usam estas palavras do Salmo 22 para se dirigirem a Deus quando estão perante a morte. Por um lado, é uma forma de lamentar o sentimento de afastamento d'Ele, por outro, de dar testemunho da sua fé no poder e na graça de Deus. Foi com estas palavras que Jesus se dirigiu ao Seu Pai.
Mas o Salmo 22 também remete para o sofrimento e a confiança do justo em Deus. Grande parte deste Salmo também remete para a morte sacrificial de Cristo, o que o torna uma prova veterotestamentária do Messias, que é Jesus.
«Tenho sede» (Jo 19,28)
Foi aí que se cumpriu o que está escrito no Salmo 69,21: «Deram-me fel por mantimento e, na minha sede, me deram a beber vinagre.» No sentido figurativo isso significa que Jesus teve de beber o cálice do sofrimento até ao fim para que, assim, se cumprisse na íntegra a vontade do Pai.
«Está consumado.» (Jo 19,30)
Quando estas palavras foram pronunciadas, era pela nona hora, ou seja, início da tarde. Foi a conclusão de uma parte importante dentro da história de salvação: Jesus fez o sacrifício para a salvação do Homem. A Sua morte sacrificial põe termo à Antiga Aliança, que tinha sido feita exclusivamente com o povo de Israel. É a altura de a Nova Aliança entrar em vigor (Heb 9,16), uma aliança à qual também têm acesso os gentios.
«Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.» (Lc 23,46)
Esta citação do Salmo 31,5 mostra que Jesus Cristo, mesmo neste momento, confiava plenamente no Seu Pai.
A morte do Senhor foi acompanhada de acontecimentos dramáticos: a terra tremeu e fenderam-se as pedras; e o véu do templo, que separava o lugar santíssimo do santo, rasgou-se em duas peças. Isso indica que, por um lado, o serviço sacrificial veterotestamentário encontrara o seu termo na morte de Cristo e deixara de ter importância; a Antiga Aliança fora cumprida. Por outro lado, indica que, através da morte sacrificial de Jesus, pelo "rasgar do véu", «isto é, pela sua carne» (Heb 10,20), estava criado o caminho que levava ao Pai.
Vendo tudo aquilo que sucedera no momento da morte de Jesus, o centurião romano e os soldados que guardavam o Senhor exclamaram: «Verdadeiramente este era Filho de Deus» (Mt 27,54). Ou seja, no momento da morte de Jesus foram gentios que reconheceram n'Ele o Filho de Deus.
José de Arimateia, membro do Sinédrio, pediu a Pilatos que lhe entregasse o corpo de Jesus, para que o pudesse sepultar. Juntamente com Nicodemos, que outrora fora ensinado pelo Senhor sobre a regeneração de água e espírito (Jo 3,5), colocou Jesus num sepulcro novo aberto numa rocha. E o sepulcro na rocha foi tapado com uma grande pedra; os sumos sacerdotes mandaram soldados guardar o sepulcro (Mt 27,62-66).
Segundo o comprova a Escritura Sagrada, tanto o sofrimento de Jesus, como a Sua morte, aconteceram em representação dos homens e, como tal, têm efeito salvífico: «Porque para isto sois chamados; pois, também, Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas; o qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano; o qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; levando ele mesmo, em seu corpo, os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados» (1Pe 2,21-24).
Como Sofredor e Moribundo, Cristo, o Mediador, reconcilia os homens com Deus e cria o meio de redenção do pecado e da morte. Assim se cumpria a palavra de João Batista: «Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1,29). Através da Sua morte sacrificial, o Senhor aniquilou o poder de Satanás e venceu a morte (Heb 2,14). Dado que Jesus Cristo tinha resistido a todas as tentações de Satanás, Ele, por ser impecável, pôde assumir os pecados de toda a humanidade (Is 53,6) e adquirir um mérito através do Seu sangue, a partir do qual toda a iniquidade pode ser remida: a Sua vida, que Ele deu pelos pecadores, é o resgate. A Sua morte sacrificial abre ao Homem o caminho para Deus.